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O jongo, também chamado de caxambu ou tambu, é um gênero musical e uma dança de roda cujas matrizes vieram da região africana do Congo-Angola para o Brasil-Colônia com os negros de origem banto, trazidos como escravizados para o trabalho forçado nas fazendas de café situadas nas margens do Vale do Rio Paraíba, interior dos estados do Rio de Janeiro e São Paulo.
Os brancos, senhores donos das terras, permitiam que os escravizados dançassem o jongo nos dias dos santos católicos, casamentos, batizados e demais festas de família como estratégia para acalmar a revolta e o sofrimento com a escravidão e distrair o seu tédio nas isoladas fazendas de café.
Para esses negros africanos e seus filhos, o jongo era um dos únicos momentos permitidos de trocas, confraternização e fortalecimento dos seus laços.
Por ter sido criada pelos pretos e pretas-velhas no tempo do cativeiro e ser a sua dança preferida, as rodas de jongo sempre homenageiam esses ancestrais e suas entidades, as santas almas benditas. Elas são as donas do jongo.
O jongo influenciou decisivamente o nascimento do samba no Rio de Janeiro. No início do século 20, dançava-se muito o jongo no alto das primeiras favelas pelos fundadores das escolas de samba, antes mesmo do samba nascer e se popularizar. Os antigos sambistas das velhas guardas das escolas de samba realizavam rodas de jongo em suas casas. Nessas festas, visitavam-se uns aos outros, recebendo também jongueiros do interior.
Os versos do partido-alto e do samba de terreiro são inventados na hora pelo improvisador. Esse canto de improviso nasceu das rodas de jongo. A umbigada, que na língua quimbundo se chama “semba”, originou o termo samba e também faz parte do samba primitivo. A “mpwita”, instrumento congo-angolano presente no jongo, é a avó africana das cuícas das baterias das escolas de samba.
Por ser uma festa profana e de divertimento, mas com aspectos místicos, o jongo se restringiu aos ambientes familiares. Por isso, ao contrário do samba, que logo conseguiu hegemonia nacional, acabou sendo pouco divulgado.
Antigamente só os mais velhos podiam participar das festas de jongo e entrar na roda. Os jovens e as crianças ficavam de longe observando escondidos. Os antigos eram muito rígidos com os mais novos e exigiam muita dedicação e respeito para ensinar os segredos e “mirongas” do jongo e os fundamentos dos seus pontos.
No entanto, percebendo que, com a morte dos idosos, os fundamentos do jongo corriam risco de desaparecer, as comunidades passaram a admitir crianças e jovens nas rodas de jongo, de modo a perpetuar esta tradição através das novas gerações.
O jongo é uma dança dos ancestrais, dos pretos-velhos escravos, do povo do cativeiro, e por isso pertence à “linha das almas”. Contam que aquele que tem a “vista forte” é capaz de enxergar um antigo jongueiro falecido se aproximar da roda atraído pelo som dos tambores para matar as saudades, dançar e participar um pouco e relembrar o tempo em que dançava o caxambu.
Contam também que alguns jongueiros, à meia-noite, plantavam no terreiro ao lado da roda de jongo uma muda de bananeira que, durante a madrugada, crescia e dava frutos distribuídos para os presentes. No seu caule era enfiada uma faca fazendo jorrar vinho tinto que era bebido por todos.
Outro caso lendário conta sobre a disputa na roda de dois jongueiros feiticeiros poderosos. Um entrou na roda e desafiou o outro que jogou sua bengala no chão que imediatamente se transformou numa cobra venenosa que se arrastou ligeira para picar o jongueiro adversário.
Este, mais poderoso, jogou seu chapéu no ar que se transformou em uma águia que aterrissou no meio da roda e pegou a cobra com a boca e saiu em revoada afastando-o do perigo. São muitas histórias mágicas relembradas e contadas pelos mais velhos. Quem tem fé acredita.
Dizem os mais velhos que hoje em dia, devido à destruição e distanciamento da natureza, a poluição, corre-corre da vida urbana, excesso de interferências da eletricidade e das ondas eletromagnéticas dos milhares de equipamentos, além da falta de fé, o poder da magia foi enfraquecendo e sumindo do mundo. Fez com que esses fenômenos e feitiços acontecessem com menor freqüência, até praticamente desaparecerem. Porém, quem tem sensibilidade e intuição pode perceber a magia e a enorme força recebida e manifestada ao participar das rodas de jongo.
Até hoje, alguns núcleos familiares de afro-descendentes persistem em manter viva a tradição do jongo. Muitas ainda moram nos bairros rurais e periféricos das pequenas cidades do Vale do Café como Valença, Pinheiral, Barra do Piraí, Piraí e Vassouras.
Devido a sua grande importância histórica e cultural para a formação da identidade brasileira, o Jongo foi reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) como patrimônio cultural imaterial brasileiro em 2005.
O processo de reconhecimento dos bens culturais como patrimônio nacional objetiva não só a salvaguarda destes bens por meio da documentação e da produção de conhecimento sobre o tema, mas também da garantia das condições materiais que possibilitem a existência e o fortalecimento dos detentores destes saberes enquanto coletividades, assim como a transmissão dos saberes e práticas constituintes da sua dinâmica (Diretrizes Básicas do PNPI).

